quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008


Ele já tinha visto quase tudo.
E tudo se edificava nela.
Desde aquele dia era tudo, quase, assim. Ou quase tudo a lembrava ou tudo-quase o lembrava dela.
E pra tudo se tornar quase, só bastaram alguns sorrisos-de-instantes.

Ele que nunca esperava nada.
Ele, que achava já ter visto de tudo.
Em jamais esperar, conheceu alguém, assim.
E agora se sabia menor; com quase menos, em quase tudo.

Desde então, ele continuava a andar.
A percorrer ruas por onde, supunha, poder descobri-la.

Montando imagens e querendo ser surpreendido. Distorcendo a feição de todos os personagens que imaginava – com, até, contida certeza – estar criando o tempo todo.

Logo ele, tão genial. Acreditou sempre que seu mundo era construído do universo que o compõe. Que dele refletia tudo aquilo – tudo em seus olhos, codificadores de um grafismo quase fotográfico.
Ele era a mente – que contorcia e expandia o que lhe convinha.
Ou, quase tudo.
É que, desde aquele sorriso, esse quase estava em tudo, quase, mesmo.
E ele não conseguia entender como sua percepção se alterara assim, pra quase tudo.
Sentia-se paranóico. Sabia que todo distúrbio precisava de estímulos para continuar. Sabia que podia freá-la, mas até suas palavras oscilavam e se repetiam.

Ele continuava a caminhar com a boca calada e a mente ensurdecendo a razão.
Era tudo dela. E essa ânsia por um reencontro o fazia formular coincidências – programadas meticulosamente.
É, logo ele, que sempre dominara o tempo. Que era senhor deste e de todos-os-outros-e-sempre-seus mundos.


Cabelos longos. Tinha que ser ela.
Paralisou. Revisitou a conversa ensaiada – quase mais impregnada que aquela imagem-miragem daquele todo-sorriso. Aquele sorriso da boca gigante. E que o levara até ali. E que o fazia esquecer de todas as suas coisas. Pra sempre quase-coisas, depois, até ali.
Aquele dia que nunca foi embora.
Preso naquela imagem que transpunha a carne.

Ele não entendia.
Tinha desistido.
Ela o aprisionara.
Ali, naquele-esse-mesmo-sempre-gigante sorriso. Brilhoso. Sincero.
Tudo que ele ansiou, agora.
Ao alcance de seus olhos-projetivos.

Tentou distorcer, novamente, a paisagem. Esmaecer tudo que a compunha.
Quis se por de longe, a reinventá-la, a fazê-la pra sempre, de novo.
Quis roubar sua imagem pra si. Congelá-la num frame furtado. Perpétuo e intransponível.

Ele se aproximou.
O corpo já não pertencia. Comandos e estímulos sem a sombra dos sentidos.

Sentiu tudo, de novo.

Estranhou formar imagens inteiras.

Projeções icônicas se fundindo no espaço.

O quase no tudo, quase, tudo, próximo.

Então ele entendeu.

E foi embora, antes que ela se virasse.

Ela se edificara.
E quase tudo nela o interessava.

Quase. Não tudo.